Comércio do Centro do Recife mantém força, mas insegurança ainda preocupa consumidores Pesquisa aponta que preços e variedade seguem atraindo clientes, enquanto sensação de segurança aparece como principal desafio para o polo comercial
Pesquisa aponta que preços e variedade seguem atraindo clientes, enquanto sensação de segurança aparece como principal desafio para o polo comercial

Informações do JC
Pelo menos uma vez por mês, Marinete Oliveira, 46, visita o comércio no Centro do Recife. Moradora de Barra do Sirinhaém, no Litoral Sul de Pernambuco, ela percorre um caminho de cerca de 75 quilômetros, de ônibus ou carro, para chegar à Rua das Calçadas, no bairro de São José. A variedade e os preços são o diferencial, segundo ela.
“Trabalho com cestas especiais. Então venho ao Centro para comprar chocolates, perfumes e outros produtos para compor as cestas. Apesar da distância, a gente paga um valor menor e vale muito a pena”, contou.
Marinete faz parte de um grupo de consumidores que não abre mão da tradição de ir ao Centro do Recife para fazer compras. Nem a forte concorrência das lojas virtuais, com promessas de descontos mais atrativos, faz com que ela mude a rotina. “Gosto de pesquisar e escolher pessoalmente”, afirmou.
Uma pesquisa do Centro Universitário Frassinetti do Recife (UniFafire) em parceria com a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) apontou que quatro em cada dez pessoas disseram que fazer compras é o principal motivo para frequentarem a área central da capital pernambucana.
“Os principais fatores de atração são os preços competitivos e a ampla variedade de produtos. Os entrevistados destacaram a possibilidade de comparar valores entre diversas lojas em uma mesma região e encontrar produtos que nem sempre estão disponíveis em outros centros comerciais. Embora a tradição também esteja presente na escolha de alguns consumidores, os aspectos econômicos se mostraram predominantes”, pontuou o coordenador da pesquisa na Unifafire, Eduardo da Costa Aguiar, especialista em gestão estratégica de marketing.
A pesquisa, no entanto, apontou a segurança pública como principal problema no Centro do Recife. Para se ter uma ideia, 83% dos entrevistados demonstraram preocupação e disseram que é uma área que precisa melhorar. Apesar desse sentimento, estatísticas oficiais da Polícia Militar apontam para redução de 75% nos roubos e furtos na região em 2026.
As entrevistas foram realizadas em áreas de grande circulação comercial e de pedestres, como a Rua das Calçadas, Rua Direita, Pátio do Mercado de São José, Pátio da Igreja do Carmo e Rua da Penha. Esses locais foram selecionados por apresentarem diferentes perfis de comércio e representarem espaços tradicionais de compras na cidade, como forma de garantir maior diversidade de opiniões.
“A principal preocupação está relacionada ao risco de furtos. Muitos consumidores demonstraram receio de circular pelo Centro carregando dinheiro, bolsas, celulares ou mercadorias adquiridas durante as compras. Ainda que nem todos tenham vivenciado situações de violência, a percepção de vulnerabilidade influencia a experiência de consumo e o tempo de permanência na região”, disse Aguiar.
No dia em que Marinete esteve na Rua das Calçadas, na manhã da terça-feira (02/06), ela reclamou da falta de policiamento. Disse que passou algumas horas circulando pelas lojas, mas não encontrou militares nas ruas. Redobrou a atenção às bolsas e sacolas para evitar furtos em meio ao forte movimento, atraído ainda mais pela proximidade da Copa do Mundo.
Segundo o coordenador, a pesquisa não identificou diferenças significativas na percepção de insegurança entre os diferentes grupos de entrevistados. O receio aparece de forma relativamente homogênea entre homens e mulheres, jovens e adultos, indicando que se trata de uma preocupação generalizada. Ao todo, 536 pessoas foram ouvidas.
Presidente da CDL Recife, Fred Leal afirmou que o resultado da pesquisa não surpreendeu. “Faz mais de cinco anos que fazemos essa pesquisa e sempre dá segurança como principal item. Mas é preciso pontuar que a Polícia Militar tem feito um esforço muito grande”, argumentou.
Quase metade dos entrevistados (49,1%) avalia a segurança no Centro do Recife como ruim, enquanto 34,1% classificam como regular.
O Centro do Recife permanece como um dos principais polos de circulação de renda, geração de empregos e consumo do Estado, papel relevante na dinâmica econômica da região metropolitana. Por isso, a preocupação não se restringe aos consumidores. Lojistas temem redução do movimento no comércio.
O presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de Pernambuco (Fecomércio-PE), Bernardo Peixoto, destacou que, durante anos, eles observaram o esvaziamento de suas lojas em razão da percepção de insegurança dos consumidores do Centro do Recife.
Em 2024, a entidade elaborou a pesquisa “Perspectivas e Oportunidades Econômicas para o Centro do Recife”. A insegurança também foi apontada por 87% dos frequentadores como o principal aspecto negativo da região. Os ambulantes e o comércio informal também foram associados a esse sentimento, segundo o estudo.
“É possível observar avanços desde então, especialmente no reforço do policiamento e na melhoria da sensação de segurança da população, em grande medida devido à maior presença de policiais nas ruas. Ainda assim, permanece necessária a ampliação dos efetivos e a adoção de estratégias que fortaleçam a segurança pública, justamente para estimular o retorno dos consumidores”, avaliou.
O pesquisador Eduardo da Costa Aguiar ressaltou que, embora a pesquisa da Unifafire não permita mensurar quantitativamente esse potencial, os resultados sugerem que melhorias nas condições de segurança e mobilidade poderiam ampliar significativamente a atratividade do Centro.
“A redução da percepção de violência e a facilitação do acesso tenderiam a estimular a visitação de públicos que atualmente evitam a região. Entretanto, como o estudo foi realizado apenas com pessoas que já frequentam o Centro, não foi possível estimar o volume de novos consumidores que poderia ser atraído”, disse.
REDUÇÃO DOS CRIMES NO CENTRO DO RECIFE
Apesar do sentimento de insegurança para a maioria dos frequentadores do Centro do Recife, as estatísticas oficiais apontam para uma redução significativa dos crimes patrimoniais, ou seja, os roubos e furtos.
O tenente-coronel Rodrigo Jorge Grisi, comandante do 16º Batalhão da Polícia Militar, responsável pela área, afirmou que, entre janeiro e abril de 2026, a polícia somou 330 registros de ocorrências nos bairros de Santo Antônio, São José e Boa Vista, principais polos comerciais do Centro. O número representa uma redução de 75% nos roubos e furtos em comparação com o mesmo período de 2025, quando 1.330 casos foram contabilizados.
Na avaliação do comandante, a chegada de novos policiais nas ruas e as operações estratégicas foram fundamentais para a redução dos crimes.
“Nosso batalhão foi o que mais recebeu novos policiais militares por causa dos crimes patrimoniais. Havia muitos registros de ocorrências em localidades como a Praça do Diario, a Avenida Dantas Barreto, a Avenida Conde da Boa Vista. Atacamos esses locais com o emprego dos novos PMs. Temos no batalhão uma seção para análise de estatísticas. Esse setor assessora o comandante a tomar decisões de distribuição do efetivo”, pontuou.
O oficial destacou que os crimes patrimoniais no Centro do Recife são praticados, sobretudo, por pessoas em situação de rua.
“Nas áreas com mais ocorrências há muitas pessoas em vulnerabilidade. Muitas delas são usuárias de drogas, como o crack. Por causa do vício, elas praticam os furtos para trocar o material pela pedra. É possível observar que essas pessoas se alocam próximo a pontos de tráfico e de locais onde podem vender esses materiais de furtos”, disse.
Segundo o comandante, a Polícia Civil vem trabalhando em investigações para identificar os receptadores dos materiais furtados para que esses crimes sejam reduzidos ainda mais.
A Polícia Militar também vem intensificando a apreensão de armas brancas, ou seja, facões e facas, que são mais utilizadas nos roubos nas ruas do Centro do Recife.
“No primeiro quadrimestre conseguimos apreender 263 armas brancas e levar os responsáveis para delegacias. Essas armas também são usadas em homicídios, durante brigas entre essas pessoas em situação de rua. Por isso, fizemos operações para tirar de circulação essas armas. Neste ano não tivemos homicídio com essas características no Centro do Recife”, afirmou.
O tenente-coronel fez um apelo para que as vítimas de crimes patrimoniais registrem os boletins de ocorrência. “São a partir dessas informações que a Polícia Militar desenvolve estratégias e redistribui o efetivo nas áreas onde há maior necessidade”, reforçou.
Os boletins de ocorrência podem ser registrados em qualquer delegacia ou no site da Secretaria de Defesa Social (sds.pe.gov.br).




