Ópera “Anastácia”, de Armando Lôbo, estreia no Teatro Santa Isabel com duas sessões gratuitas

Drama musical inspirado em Dostoiévski será apresentado neste sábado (31), às 19h e 21h, no Recife, unindo ópera contemporânea, ópera-rock e teatro.

No próximo dia 31 de janeiro, sábado, os recifenses poderão assistir, duas sessões (19h e 21h), a estreia da ópera “Anastácia”, um drama musical do compositor pernambucano Armando Lobo inspirado na obra de Fiódor Dostoiévski.  Encenada no Teatro Santa Isabel, a ópera é uma tragédia contemporânea inspirada em passagens tocantes de algumas obras de Fiódor Dostoiévski, notadamente “Recordação da Casa dos Mortos”, “Os Demônios” e “Crime e Castigo”. O libreto também possui influência marcante de Georg Büchner, Nelson Rodrigues, e Erich Neumann e citações a Eurípedes, Arthur Rimbaud e William Shakespeare. O espetáculo é uma realização da mesma equipe criativa da “Ópera do Claustro”, que teve temporada de grande sucesso no Recife em 2025, com superlotação e aclamação ruidosa em todas as récitas.

Toda a ação da ópera se passa em uma colônia penal feminina. O enredo mostra uma presidiária, de nome Anastácia, que assassina outra detenta porque esta não lhe devolvera uma bíblia. O projeto nos propõe uma reflexão catártica sobre questões de patologia, exclusão, vazio, confinamento, culpa e expiação. Com o objetivo de conjugar imaginação poética e dados da realidade social, o projeto realizou entrevistas com ex-detentas, de onde foram extraídos elementos concretos que são poetizados na encenação, que também apresenta situações fantásticas e elementos da cultura popular nordestina, como a presença marcante de Papangus endemoniados. Há também uma inusitada ciranda – dançada e cantada não à “beira-mar”, mas ao redor de um cadáver -, e a abordagem de temas cruéis como perversão sexual, canibalismo e auto-imolação.

“Mais do que óperas, eu produzo tragédias contemporâneas, onde não é o herói que sucumbe, mas o cosmo inteiro que desaba”, revela Armando Lôbo. “O tema de Anastácia aparenta ser um ato violento que acontece dentro de um presídio feminino, mas o crime não pertence apenas à personagem. Todo artista verdadeiro é de certa forma um delinquente ou criminoso. Como o santo ou o filósofo, o crime do artista é tocar em coisas que ninguém quer ver ou está vendo”, prossegue o compositor pernambucano, destacando que “os artistas estão muito acomodados hoje em dia… A Inteligência Artificial vai dar conta (já está dando) de todos os que não têm espírito, superando-os facilmente”.

A ÓPERA

“Anastácia” combina elementos da ópera erudita contemporânea, ópera-rock e teatro contemporâneo, em uma abordagem dramatúrgica que se aproxima do naturalismo fantástico. Na obra, recitativos operísticos são evitados em favor de diálogos teatrais que facilitam o entendimento da trama. Todo o conteúdo harmônico e melódico da música é derivado da escala do blues e de modos da escala nordestina; este conteúdo recebe um tratamento orquestral que remete a texturas da música contemporânea de concerto. Há também passagens com programações eletrônicas feitas a partir da sonoridade de um berimbau, somado a vozes fantasmagóricas processadas. Um trio de metais (trompete, trompa e trombone) faz a metáfora sonora do meio marcial/policialesco; violoncelo, guitarra elétrica, bateria e berimbau completam a sonoridade agressiva e muito brasileira da música.

A estreia de “Anastácia” nos palcos também é o pré-lançamento de uma revista que estabelece uma nova forma de fruição para a ópera: a “foto-ópera”. Concebido pelo multiartista pernambucano Armando Lôbo, o trabalho está em fase final de edição, mas uma prensagem experimental já estará à venda na estreia teatral de 31 de janeiro. A “foto-ópera” é uma publicação impressa em papel, e tem estilo assemelhado ao das fotonovelas bastante populares no Brasil nos anos 70 e 80 do século XX. As cenas foram fotografadas em um antigo presídio localizado no centro do Recife, e que hoje abriga a Casa da Cultura da cidade. A revista impressa Anastácia segue exatamente o modelo das fotonovelas melodramáticas tradicionais, com fotografias e balões de diálogos acompanhando as peripécias do roteiro. A música da foto-ópera poderá ser acessada facilmente e gratuitamente por smartphone através de QR CODE impresso na revista. Na publicação, além da inspiração em fotonovelas, há elementos de histórias em quadrinhos e a presença de páginas de variedades (horóscopo, receitas culinárias etc.), como em uma publicação comercial popular de décadas atrás, voltada ao entretenimento. Com cerca de 40 páginas, a revista serve também de libreto impresso para a performance do espetáculo em palco.

SERVIÇO

31/1/2026, sábado – Estreia da ópera ANASTÁSIA

LOCAL: Teatro Santa Isabel, Recife.

HORÁRIOS: às 19h e 21h.

ENTRADA FRANCA, com doação de 1 kg de alimento.

DURAÇÃO DO ESPETÁCULO: ~ 60 minutos

PREÇO DA REVISTA: R$30,00 (promoção de pré-lançamento)

FICHA ARTÍSTICA E TÉCNICA

Concepção, Direção, Libreto e Música: Armando Lôbo

Direção de Arte, Design, Cenografia e Figurino: Marcelo Coutinho

ELENCO

Anna Carolina Nogueira

Paulo Cesar Freire

Karla Karolla

Virginia Cavalcanti

Aryma Nascimento

Elias Marques

Anastácia Rodrigues

Camila Fernandes

Wanessa Mouta

Gabriela Martinez

MÚSICOS (ILUDENS Ensemble):

Helder Passinho – trompete

Adriano Lima – trompa

Thomas Barros – trombone

Rodrigo Prado – violoncelo

Ítalo Sales – guitarra

Hugo Medeiros – percussão

Regência Musical: Nilson Galvão

Produção: RV, Manassés Bispo e Armando Lôbo

Direção de Produção e Administração do projeto: Manassés Bispo

Programador Visual, Designer e Assistente de Produção: Talian Lessa

Assistente de Direção: Nilo Cabral

Psiquiatra Psicossocial: Carla Novaes Carvalho

Tradução em Libras: Tarciane Tavares

Luz: João Guilherme de Paula

Som: Fábio Janhan

Projeto patrocinado pelo FUNCULTURA-PE.

PARCERIA

CO.MO – Cia. de Maravilhosas Óperas

APOIO

CAAPE – Caixa de Assistência dos Advogados de PE.

RXZ Comunicação

FOX – Suprimentos Corporativos

PRISMA – Áudio e Instrumentos Musicais

MINI BIOS

Armando Lôbo

Compositor, encenador, multiartista e pesquisador pernambucano, Armando Lôbo

desenvolve gêneros e estilos musicais diversos, com o uso de matizes experimentais e

abordagem conceitual de tonalidade filosófica. Também concebe e produz projetos

artísticos interdisciplinares, unindo vídeo, performance, teatro, literatura, música e

pesquisa histórica e antropológica.

Foi contemplado em diversos prêmios nacionais e internacionais, como compositor e

também como diretor de filmes experimentais. Lançou 5 álbuns que mereceram cotação

máxima da imprensa especializada. Sua obra tem sido executada por importantes grupos

no Brasil, Europa e Estados Unidos. Lôbo é Ph.D. em composição cênica pela

Universidade de Edimburgo, Reino Unido.

Marcelo Coutinho

Artista e professor de artes visuais da UFPB e UFPE. Mestre em Comunicação pela

UFPE, doutor em Poéticas Visuais pela UFRGS e pós-doutor em Design e Cultura pela

UFPE. Premiado em importantes mostras nacionais, participou das principais exposições

de arte contemporânea do Brasil, entre as quais destacam-se a 30a Bienal Internacional

de São Paulo e várias edições do Panorama da Arte Brasileira, promovido pelo Museu de

Arte Moderna de São Paulo. Trabalhando entre linguagens como o filme, a instalação e a

performance, tem obras nos acervos do MAC-SP, MAM-RJ, MAM-BA, MAMAM-PE, entre outras instituições.

Redação

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