Novos diálogos revelam plano de vingança e execução de familiares na Chacina de Camaragibe Mensagens de WhatsApp analisadas pelo MPPE indicam que policiais militares planejavam matar parentes do vigilante Alex da Silva Barbosa após a morte de dois PMs; denúncia aponta execuções e tortura durante a chamada "operação vingança"
Mensagens de WhatsApp analisadas pelo MPPE indicam que policiais militares planejavam matar parentes do vigilante Alex da Silva Barbosa após a morte de dois PMs; denúncia aponta execuções e tortura durante a chamada "operação vingança"

Informações do JC
Novos diálogos entre policiais militares, obtidos por meio da análise de mensagens de WhatsApp, contribuíram para que o Ministério Público de Pernambuco (MPPE) identificasse e denunciasse acusados de participação na sequência de assassinatos que ficou conhecida como a Chacina de Camaragibe.
O Jornal do Commercio teve acesso, com exclusividade, aos detalhes. A troca de mensagens entre alguns dos policiais militares envolvidos na caçada ao vigilante Alex da Silva Barbosa deixa claro que a intenção não era apenas capturá-lo, mas se vingar: parentes dele também seriam alvos.
“Tem que matar a família dele”, diz uma das mensagens extraídas de um celular apreendido por ordem judicial.
O texto foi escrito poucas horas após dois policiais militares serem mortos numa troca de tiros com Alex, no bairro de Tabatinga, em Camaragibe, no Grande Recife, na noite de 14 de setembro de 2023.
A “operação vingança”, como foi classificada pelo MPPE, teve início com os assassinatos dos irmãos de Alex, identificados como Ágata Ayanne da Silva, 30, Amerson Juliano da Silva e Apuynã Lucas da Silva, ambos de 25.
No momento em que homens encapuzados chegaram para matá-los, Ágata iniciou uma transmissão ao vivo pelo Instagram, o que não inibiu a ação criminosa.
Às 1h32 do dia 15 de setembro, uma mensagem enviada a um grupo de WhatsApp formado por militares (Turma 34) informou que mataram “a irmã e o irmão do maloqueiro”.
No diálogo, um militar sugeriu que fosse feita uma “denúncia”. Outro retrucou: “vai ficar muito na cara”. Em seguida, escreveu: “Assistimos de camarote”.
Segundo as investigações, Fábio Roberto Rufino da Silva, na época comandante do 20º Batalhão da PM, e Marcos Túlio Gonçalves Martins Pacheco, que ocupava o segundo posto de comando da inteligência, lideraram a caçada ao vigilante e aos parentes dele e acompanharam as execuções em tempo real. Eles negam as acusações.
“Em tempo real, Marcos Túlio e Fábio Rufino acompanharam o arrebatamento e a execução das vítimas, estando estrategicamente posicionados no local onde a empreitada criminosa se desencadeou”, apontou o documento do MPPE.
A denúncia descreve que, após uma reunião, policiais militares seguiram para a casa da esposa de Alex, Maria Nathália Campelo do Nascimento, que foi vítima de “violência física, psicológica e grave ameaça”. Dois PMs retiraram a mulher do imóvel, puxando-a pelos cabelos.
Outros militares foram à casa da mãe do vigilante, Maria José Pereira da Silva. A residência foi arrombada e a vítima foi obrigada a seguir na viatura policial.
O MPPE afirmou que os PMs seguiram em comboio, em três veículos até a estrada da Usina Mussurepe, próximo a um canavial, na PE-027, no município de Paudalho, onde executaram as duas vítimas a tiros, “inclusive realizando disparos a queima-roupa, no rosto da vítima Maria Nathália e na cabeça da vítima Maria José”. Os corpos foram encontrados na manhã seguinte.

Outro diálogo, já revelado pelo JC em 2024, mostrou a comemoração de policiais militares após a sequência de crimes:
“Eu tô feliz, pô, tem que ser assim mesmo, pô, mexeu com a gente, a gente tem que ir, matar pai, mãe, família, quem tiver, tem que matar mesmo, (…), tem que botar pra (…) mesmo, tem que arregaçar. (…) pense na alegria, hoje o inferno tá feliz.”
DENÚNCIAS À JUSTIÇA
No começo de julho deste ano, o MPPE denunciou oito policiais militares pelas mortes da mãe e esposa de Alex: Romoaldo de Oliveira Guerra, Moisés Delfino de Souza, Thiago Dizeu de Souza, Geraldo Nascimento de Souza, Rodrigo Augusto Venâncio e Thiago Firmino Tavares (considerados os executores), além de Fábio Roberto e Marcos Túlio. O MPPE também pediu a prisão preventiva dos acusados.
A 1ª Vara Criminal da Comarca de Camaragibe declarou-se incompetente para dar prosseguimento à ação penal, uma vez que as execuções das vítimas teriam ocorrido em Paudalho. Por isso, na semana passada, determinou a transferência dos autos, que ainda serão analisados pela Vara Criminal da Comarca de Paudalho.
Em relação às mortes dos irmãos de Alex, 12 policiais, incluindo Fábio Roberto e Marcos Túlio, são réus por triplo homicídio duplamente qualificado (motivo torpe e sem chance de defesa das vítimas) desde 2024. O processo ainda está na fase de audiências de instrução e julgamento.
RELEMBRE O CASO
O caso teve início quando o soldado Eduardo Roque Barbosa de Santana, 33, e o cabo Rodolfo José da Silva, 38, foram acionados para o bairro de Tabatinga, após uma denúncia de disparos de tiro.
Ao chegarem no local, os militares foram mortos pelo vigilante. Uma vizinha do atirador, Ana Letícia Carias, que estava grávida, também foi vítima de bala perdida. Ela morreu semanas depois, mas a bebê sobreviveu.
A partir daí, teve início a caçada a Alex e a sequência de mortes dos familiares dele.
O vigilante foi morto na manhã de 15 de setembro, após uma troca de tiros com militares. Esse procedimento foi arquivado porque a investigação concluiu que houve legítima defesa por parte dos PMs.
Os policiais também são investigados pela Corregedoria da Secretaria de Defesa Social (SDS) e podem ser expulsos da corporação. Não há previsão de conclusão desse processo administrativo.

