Com mais de 60 anos em Pernambuco, Alcoólicos Anônimos amplia rede de apoio e acolhimento Fundada no Recife em 1964, a irmandade reúne atualmente 284 grupos no estado e recebe diariamente entre 20 e 30 novos pedidos de ajuda por meio de encontros presenciais e canais digitais
Fundada no Recife em 1964, a irmandade reúne atualmente 284 grupos no estado e recebe diariamente entre 20 e 30 novos pedidos de ajuda por meio de encontros presenciais e canais digitais

Informações do JC
Uma rede de reuniões, voluntariado e troca de experiências entre pessoas que enfrentam o alcoolismo. O grupo Alcoólicos Anônimos (AA), que começou em Pernambuco dentro de uma garagem na década de 60, se transformou em 284 unidades ativas e acolhe diariamente entre 20 e 30 novas pessoas somente nos canais digitais.
Mais de 60 anos em Pernambuco
A reportagem do Jornal do Commercio visitou a sede administrativa da irmandade no bairro da Boa Vista, área central do Recife. Paulo, nome fictício escolhido por um membro do AA, conta que a história do grupo em Pernambuco começou há mais de 60 anos.
Em 1964, um jovem estudante retornava do Rio de Janeiro ao Recife após desistir de sua formação como militar. Devido ao álcool, teve problemas dentro do quartel e sofreu diversas repreensões, até alcançar um estopim. Um colega de internato indicou a ele o grupo Alcoólicos Anônimos, recém instalado no Brasil.
Ele encontrou nas reuniões um caminho para superar o vício e reerguer a vida. Ao chegar na capital pernambucana, tinha o objetivo de repassar a mensagem aos seus familiares, também alcoólatras, mas dobrou a aposta: divulgou o agrupamento no jornal.
Uma semana depois, já tinham 5 interessados. A primeira reunião foi na garagem da sua irmã, no bairro do Derby, Recife. Chegou a ser interrompida por agentes da polícia, num cenário já de ditadura militar. O local foi transferido e os encontros se mantiveram.
Hoje, além das 284 unidades presenciais, o estado também conta com grupos virtuais criados durante a pandemia. Paulo, que participa da comunicação do AA, comemora que “recebemos entre 20 e 30 pedidos de ajuda por dia em Pernambuco, por telefone ou redes sociais”.
Como são as reuniões do AA?
O funcionamento do AA é guiado por princípios de anonimato, voluntariado e autossuficiência. Não há cobrança de taxas nem financiamento externo, e toda a manutenção ocorre por contribuições dos próprios membros.
Maria, também membro do AA, explicou que “aqui nem é seita, nem é religião, nem tem envolvimento com partido político. A gente não se associa em nada”. Assim, as reuniões acontecem sempre em espaços cedidos, normalmente em salas de escola ou associações de moradores, em dias variados, com duração de 2 horas.
Elas seguem um formato estruturado. Há um silêncio inicial, a leitura da Oração da Serenidade e depoimentos livres dos participantes, que duram entre 15 e 20 minutos. A dinâmica também inclui a escuta de novos participantes, que são incentivados a observar antes de falar.
“Quando cheguei lá no grupo, eu eu comecei a ler o que tava lá no quadro. Coisas que eu nunca vi e nunca tinham me falado, só tinha visto ali”, lembra Nilson, que está sóbrio desde que entrou no AA há 33 anos. “Tinha frases como ‘evite o primeiro gole’, ‘vá com calma’ e ‘viva e deixe viver'”.
Identificação gera recuperação
Nilson não é o único que parou de beber logo após a primeira reunião, e isso se explica pelo fator da identificação: “se um médico, psicólogo, padre ou pastor disser algo ao alcoólatra, ele não aceita. Mas quando um diz pro outro ‘eu também sou alcoólatra’, aí a mensagem entra”, explica Maria.
Talita da Silva é psicóloga e Amiga de AA há mais de 10 anos. Isso significa que ela não é alcoólatra e nem membro da irmandade, mas auxilia como pode e atua como porta-voz não anônima. Na entrevista ao Jornal do Commercio, ela esclarece como a ciência entende a eficiência do método da organização:
“O AA e a psicologia têm pelo menos duas coisas em comum, que é o cuidado com o sofrimento e a cura pela fala”. Embora não acompanhe as reuniões fechadas, a psicóloga observa a superação de perto: “até então ele era ele era o bêbado da da rua, ele era o o marido que não vale nada. Ver essas pessoas ganhando o direito de usar o seu nome e recompor é coisa mais bonita”.
César começou a frequentar as reuniões depois que percebeu como ninguém mais o respeitava. Seus familiares o ignoravam nas reuniões de família por que ele “só conversava besteira”. No trabalho, mesmo quando não estava alcoolizado, o cheiro da bebida fazia ele ser culpabilizado por qualquer erro que outras pessoas cometiam.
“Eu tava bebendo 2,5 litros de cachaça por dia”, se recorda. Hoje, está sóbrio há 14 anos graças ao grupo. Em Pernambuco, qualquer pessoa pode procurar o apoio do Alcoólicos Anônimos, seja para si próprio ou para alguém conhecido, por meio dos contatos (81) 3221-1555 e (81) 9 8476-3207.
Também é possível ir até uma das 284 unidades ou até a sede administrativa no Recife, na Av. Conde da Boa Vista, número 50, sala 401. Paulo encerra a conversa com a mensagem de que “se você quer beber, o problema é seu. Mas se você quer parar de beber, o problema é nosso”.



