J. Borges Recebe Título de Cidadão Recifense em Homenagem à Sua Contribuição à Cultura Popular

 J. Borges Recebe Título de Cidadão Recifense em Homenagem à Sua Contribuição à Cultura Popular

Foto: Divulgação

Considerado um dos xilogravuristas brasileiros mais conhecidos no mundo, além de ser um verdadeiro mestre da Literatura de Cordel, José Francisco Borges, popularmente conhecido como J. Borges, acumula mais uma distinção ao seu vasto currículo: o poeta e artista popular agora é, também, Cidadão Recifense. Ele recebeu o Título em reunião solene realizada na Câmara Municipal, na tarde desta quinta-feira, 13, por iniciativa do vereador Gilberto Alves (PRD). Na verdade, a honraria já tinha sido concedida pelo plenário da Casa de José Mariano em 2020, faltando apenas a solenidade de entrega.

A reunião foi conduzida pelo vereador Romerinho Jatobá (PSB),  presidente da Câmara do Recife, que compôs a mesa de honra com o autor do decreto legislativo; e com o filho do homenageado, Cícero Borges, que representou o pai na solenidade. J. Borges não pode comparecer ao evento, por motivos de ordem pessoal. Após a execução do Hino Nacional, de praxe nesses eventos, o vereador Gilberto Alves ocupou a tribuna e fez suas colocações. Ele rememorou fatos de sua infância, que justificam a homenagem a J. Borges.

Guardo em minha memória muitas cenas de infância, misturadas à vida e à cultura de tantas outras pessoas oriundas do Agreste nordestino. Eu vim de Bezerros. Minha família, meus pais e avós são todos de lá. Morei naquele município por muitos anos, numa casa antiga próxima à oficina do famoso xilógrafo pernambucano, J Borges. Passávamos por lá e víamos aqueles cordéis pendurados em cordas. Essa imagem ficou gravada em minha memória. Foram os primeiros lampejos da cultura gravados em meu coração”, disse.

Gilberto Alves acrescentou que na feira de Bezerros, era muito comum os cordéis, mas os de J. Borges chamavam a sua atenção porque tinham desenhos, que eram as xilogravuras. “Seus personagens tomavam vida em minha mente de criança e meu imaginário fantasiava estórias inteiras. Quando eu lia os cordéis, aquelas figuras já estavam vivas em mim. Por isso, posso afirmar que a história de J Borges se confunde com a minha história de criança, com meu dia a dia, com meu cotidiano”.

O parlamentar narrou ainda uma vivência, que segundo ele demonstra o tanto que J. Borges representa. “Eu sempre tive o sonho de ter uma experiência de audiência papal, na Santa Sé. Mas, quis o destino que eu não conseguisse sequer participar de uma homília feita por ele. Entristecido, mas já em Roma, segui acompanhado por um grupo de amigos rumo a um restaurante. Cabisbaixo, sinceramente triste por não ter visto o papa, puxei a minha cadeira e eis que à minha frente estava muito bem exposta uma gravura do cordelista meu conterrâneo. Visivelmente emocionado, sorri satisfeito: estava em Roma, não vira o papa, mas tive a oportunidade ímpar de ver o trabalho de meu ídolo brilhando no exterior”.

O vereador disse, também, que durante toda a vida, acompanha a evolução do trabalho do mestre. “E no dia de hoje me sinto honrado sobremaneira por ter a oportunidade de entregar nessa noite solene, por incontestável merecimento, o Título de Cidadão do Recife, ao artista, cordelista e poeta brasileiro, José Francisco Borges, o nosso J. Borges, um dos mais famosos xilógrafos do mundo”.  Ele destacou que J. Borges é universal. “Toda América Latina e o mundo o celebram. E mesmo tendo cursado apenas o curso primário, já expôs seus trabalhos nos Estados Unidos, na Alemanha, na Suíça, na Venezuela e também no México”.

J. Borges, ainda de acordo com o parlamentar, também está na Venezuela, França, Portugal, Cuba, Itália, Espanha, Holanda, Bélgica, México, Argentina, Caracas. “Ele percorre o mundo com sua obra. Ele está no acervo da Biblioteca Nacional de Washington e no Museu de Arte Popular do Novo México (em Santa Fé, EUA), é divulgado no New York Times, participou da revista suíça Xilon numa edição dedicada aos xilógrafos nordestinos, figurou no calendário da ONU de 2002 e em notáveis aparições internacionais no circuito artístico mundial”.

Ele encerrou o discurso dizendo que a Câmara do Recife “sente-se honrada pela oportunidade de homenagear J. Borges e de entregar-lhe o Título de Cidadão Recifense, reconhecendo seus méritos, como artista, integrando-o na cultura, na tradição e na história de nossa secular cidade”. Após o discurso, um vídeo foi exibido no telão da Câmara do Recife, em homenagem a J. Borges.

José Francisco Borges, ou J. Borges, nasceu no município de Bezerros, Pernambuco, em 20 de dezembro de 1935, filho de Joaquim Francisco Borges e Maria Francisca da Conceição, agricultores do mesmo município. Começou a trabalhar muito cedo, aos doze anos de idade, na agricultura, e negociava nas feiras da região, vendendo colheres de pau, cestos e balaios que ele mesmo fabricava.

Trabalhou em usina de cana-de-açúcar, em olarias, fabricou brinquedos populares de madeira para sobreviver. Em 1956, veio ao Recife para vender folhetos de cordel e trabalhar na construção civil como pedreiro, carpinteiro e pintor.

Em 1964, publicou seu primeiro original. Com esse folheto, denominado “O encontro de dois vaqueiros no Sertão de Petrolina” e ilustrado com a xilogravura de Mestre Dila de Caruaru, ele teve muita sorte e vendeu 5 mil exemplares em 60 dias. Começou, então, a escrever com mais entusiasmo e a fazer suas próprias xilogravuras. O escritor e teatrólogo Ariano Suassuna reconheceu sua importância e lhe deu o título de “Melhor Gravador Popular”.

Em seguida à apresentação do vídeo, o vereador Gilberto Alves fez a entrega do Título de Cidadão do Recife a José Francisco Borges, que foi representado pelo filho. Cícero Borges, que também foi convidado a ocupar a tribuna e a fazer suas colocações. “Vim, aqui, agradecer aos vereadores do Recife, em especial ao presidente desta Casa, Romerinho Jatobá e a Gilberto Alves, que concedeu o Título ao meu pai. Desde que ele recebeu o convite, ficou muito feliz e animado. E disse que queria muito este Título”.

De acordo com Cícero Borges, o pai está bem de saúde, mas teve um pequeno problema que o impossibilitou de vir receber a honraria. “Acho que foi a emoção de vir receber este Título que ele tanto desejou. Até ontem, estava bem, mas hoje adoeceu. Mesmo assim, eu vim aqui contar um pouco de sua história e honrar o seu trabalho. Quero, sobretudo, agradecer a todos”.

No final, o vereador Romerinho Jatobá fez uma avaliação da solenidade que presidiu, enalteceu o trabalho de J. Borges e parabenizou Gilberto Alves pela iniciativa. Em seguida, convidou a todos os presentes para acompanharem o Hino da Cidade do Recife.

Céu Albuquerque

Engenheira Civil em Segurança do Trabalho, especialista em Orçamentação, Planejamento e Controle na Construção Civil, Jornalista e Fotógrafa.

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