O silêncio que protege o poder e o risco de retrocesso em Pernambuco Editorial denuncia blindagem política, interferências institucionais e a naturalização de práticas patrimonialistas às vésperas de uma eleição decisiva no estado.
Editorial denuncia blindagem política, interferências institucionais e a naturalização de práticas patrimonialistas às vésperas de uma eleição decisiva no estado.
Foto: Reprodução
do Blog Manoel Medeiros
EDITORIAL
Esse é um texto que demanda coragem. Porque enfrentar um sistema blindado, entulhado de ilícitos, conchavos e artifícios para perpetuação de um grupo familiar no poder não é tarefa confortável. Eis-me aqui, no entanto, no dever de relembrar o Pernambuco das páginas da história, das revoluções libertárias, contadas a partir da voz firme de jornalistas que travaram a batalha e nos exigem hoje, longe do dever da comparação e na humildade de um pequeno grão na imensidão de areia, a tentativa de fazer o mínimo, a nossa parte. Tirar da sombra do silêncio algo que é cada vez mais gritante.
Diante dos riscos que assumo para mim, sinto-me desconfortável à hipótese de ceder ao silêncio frente ao descortinar de 2026 e de uma eleição decisiva para Pernambuco. Seguir tentando construir um caminho alternativo, com seus percalços, ou voltar ao domínio da família Campos-Arraes?
Tenho a plena convicção de que a segunda hipótese é retrocesso retumbante. No combate à corrupção e ao patrimonialismo, na mistura maliciosa entre público e privado, na intervenção no sistema judicial, na fantasia de – sob o manto de “progresso” e “esquerda moderada” – chancelarmos as mais velhas práticas de coronelismo moderno. Não tenho dúvidas de que o governo do “moderno e antenado” João Campos na Prefeitura seria ícone festejado na Brasília do centrão.
Os acontecimentos recentes deste 2025, marcado por pequenos avanços no reconhecimento do modus operandi do fazer política sob a batuta do herdeiro de Renata Campos, chamam atenção para o poderio da blindagem que beneficia o prefeito do Recife e seu grupo político. Falo, por exemplo, do caso do candidato fura-fila de um concurso de procurador do município.
Um episódio esdrúxulo pela ousadia e pelo silêncio que ecoa de parcela importante da sociedade civil. Afinal de contas o rapaz, que pontuou na posição 63 da ampla concorrência, foi nomeado em edição extra do Diário Oficial às vésperas do Natal com laudo médico emitido dois anos após a homologação do certame. Ele é filho de um juiz da Vara de Crimes Contra a Administração Pública da Capital no TJPE e de uma procuradora de contas do TCE-PE. O pai deveria julgar a gestão do prefeito. A mãe, fiscalizar.
Pois bem. Até o momento, por exemplo, não se viu qualquer pronunciamento da Ordem dos Advogados do Brasil em Pernambuco (OAB-PE), entidade antes conectada às bandeiras de defesa da democracia, das liberdades e garantias individuais, sempre atuante nos capítulos importantes da história em que os elementos basilares da Constituição eram rasgados.
Assim como não há dúvidas sobre a régua moral e competência da atual presidente, a advogada Ingrid Zanella, também não sobram interrogações sobre a influência de gente de dentro (e de “fora”) do PSB nos rumos da instituição. Prefere-se o brinde no Réveillon do prefeito à defesa de um candidato que teve roubada a sua vaga para a Procuradoria do Município. Um silêncio que é posição política.
A postura de grandes veículos da imprensa, e aqui cito a TV Globo Nordeste, é também parte do pacote. Não se sabe por que e como uma equipe reconhecidamente competente – das melhores do País – precisa se dobrar tantas vezes ao silêncio. Certo é que, por justiça, quase sempre não depende deles. Evidente que a crise da comunicação e a necessidade de financiamento estatal – e os milhões que a Prefeitura paga anualmente de propagandas – contam, mas parece que o acerto para blindar o PSB passa longe do chão da redação. Até porque outros milhões entram de outros governos e a postura é diferente.
Por fim, nesse enredo de proteção, cito aqui o papel decisivo de conselheiros do Tribunal de Contas do Estado, contratados pro resto da vida a preço de ouro para fiscalizar as gestões públicas municipais e estadual, na defesa intransigente de um grupo político. O novo presidente do TCE-PE a partir do próximo dia dois, conselheiro Carlos Neves, segue atuando, na prática, como advogado dos que fazem o PSB. Basta ver seus posicionamentos em votações importantes, desconstruindo sem subterfúgios os achados dos técnicos. Vale também o registro das nomeações nos gabinetes, onde familiares de importantes membros da Justiça acabam ganhando mamatas nas asas do Tribunal.
Aliás, recebi várias ligações e mensagens me alertando de que o procurador-geral do Recife, que literalmente rasgou o parecer de procuradores de carreira no caso do fura-fila, foi indicação direta de Carlos Neves. Teriam trabalhado juntos. Nessa ciranda, caberá ao próprio Tribunal presidido por Neves julgar se a nomeação do filho do juiz, chancelada pelo procurador, é válida. Num sistema em que uma mão lava a outra, fica a dica: em vez de só olharem pra Brasília, prestem atenção na capitania. Por aqui, são mesmo prósperas as relações pelo Poder.




