Projeto apoiado pela Facepe fortalece preservação dos manguezais e turismo comunitário no litoral sul de Pernambuco Pesquisa da UFPE na APA de Guadalupe valoriza territórios negros, impulsiona a economia de barqueiros e mulheres e promove educação socioambiental
Pesquisa da UFPE na APA de Guadalupe valoriza territórios negros, impulsiona a economia de barqueiros e mulheres e promove educação socioambiental
O dia 19 de setembro é marcado pela celebração do Dia Nacional do Educador Social, fixado em homenagem ao nascimento de Paulo Freire, patrono da educação brasileira. A data traz à tona o papel essencial da educação comunitária e não formal na transformação socioespacial. É nesse cenário que ganha destaque o projeto “Geografias negras e turismo na Área de Proteção Ambiental (APA) de Guadalupe: cotidiano, natureza e território”, aprovado pelo Edital Solano Trindade (nº 21/2024), da Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco (Facepe).
Liderada pela professora e pesquisadora Priscila Vasconcelos, do Departamento de Ciências Geográficas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a iniciativa conecta a universidade pública, a preservação ambiental e a valorização das geografias negras em territórios estuarinos. Suas origens remontam aos anos de 2018 e 2019, a partir da realização do Zoneamento Ambiental e Territorial das Atividades Náuticas (Zatan) da Região do Estuário do Rio Formoso/APA de Guadalupe (decreto nº 50.049/2021). As ações do projeto concentram-se na APA Guadalupe, no litoral sul de Pernambuco – um território de 32 mil hectares continentais e 12 mil hectares marítimos que abrange partes de Sirinhaém, Rio Formoso, Tamandaré e Barreiros. A região se destaca pelo forte apelo turístico e pela riqueza ecológica, reunindo manguezais, remanescentes de Mata Atlântica, vegetação de restinga e uma marcante tradição culinária.
Segundo a professora Priscila Vasconcelos, o projeto adota uma metodologia etnográfica e dialógica, baseada na observação participante e vivência em campo – o que contribuiu para o estabelecimento de uma relação de confiança com os moradores. “O educador social atua como esse mediador fundamental entre a sociedade e a natureza, sendo um agente central na formação de responsabilidade socioambiental e política. Na Geografia, não podemos separar a conservação natural das relações socioespaciais e da busca por relações sociais mais justas”, afirma.
O diferencial do projeto reside na forma como o afroturismo (segmento do turismo voltado para valorizar a história, a ancestralidade e a cultura da população negra) emergiu de maneira orgânica do próprio território. A partir das vivências de campo com estudantes universitários, os próprios barqueiros e residentes passaram a criar e autogestionar roteiros turísticos e pedagógicos diferenciados. Em paralelo, a atuação também busca impactar o trabalho das mulheres da localidade, articulando a valorização da culinária ancestral com o fortalecimento econômico. “O projeto dialoga diretamente com o afroturismo ao atuar com um público que está em processo de letramento racial. Nossa expectativa é que esse movimento se torne deliberado, gerando empoderamento econômico de base afrocentrada”, observa.
Apoio da Facepe
O projeto tem o apoio da Facepe por meio do Edital de Estudos Étnico-Raciais Solano Trindade, que está com inscrições abertas até 21 de setembro. Com foco no fortalecimento da equidade e no combate às desigualdades raciais no estado, a chamada selecionará projetos destinados a salvaguardar a memória e o patrimônio das culturas afro-brasileira, indígena e romani (cigana). As propostas podem abordar desde a implementação de políticas de ações afirmativas no ensino até o enfrentamento ao racismo ambiental e a análise das pautas étnico-raciais sob a ótica da interseccionalidade. A agenda inclui também o incentivo ao letramento científico e tecnológico, o fortalecimento de canais de comunicação e ancestralidade, e o desenvolvimento de estudos sobre identidade e território nos âmbitos rural e urbano. Para a professora Priscila Vasconcelos, o apoio financeiro promovido pelo edital foi fundamental para viabilizar o projeto. “A aprovação no Solano Trindade possibilitou ampliar circuitos acadêmicos e sociais, financiar apresentações internacionais e comprar materiais para campo. Vai ao encontro da necessidade de termos políticas de ciência que valorizem jovens pesquisadores e temáticas sociais”, afirma.
Na sua terceira edição, o Edital Solano Trindade pretende contemplar 20 projetos com um investimento total de R$ 2,5 milhões. A chamada irá apoiar 20 projetos em duas faixas: a Faixa A contemplará 10 propostas com valores entre R$ 70 mil e R$ 180 mil cada, enquanto a Faixa B financiará 10 projetos de até R$ 70 mil. Como requisitos para a inscrição, é necessário que o proponente atue como coordenador geral e possua título de doutor, além de vínculo efetivo com a instituição executora. A equipe pode incluir, opcionalmente, pesquisadores extensionistas (estudantes de graduação ou pós-graduação, técnicos, educadores ou membros de movimentos sociais), que devem ser identificados no ato da inscrição. Também é permitida a formação de uma equipe de apoio com esses mesmos perfis, cuja identificação poderá ser feita ao longo da execução do projeto.
O nome da chamada homenageia Francisco Solano Trindade. Nascido no bairro de São José, no Recife, Solano foi um artista multifacetado como poeta, dramaturgo, ator, artista plástico e ativista, cuja trajetória se confunde com a própria luta pela valorização da identidade afro-brasileira. Sua obra poética é um dos pilares da literatura nacional, sendo profundamente marcada pela exaltação da cultura negra, da resistência e das tradições de matrizes africanas. Como pintor, Solano utilizava cores vibrantes para retratar a estética afro-brasileira e os elementos da cultura popular, traduzindo visualmente a força de suas convicções. Além da escrita e das artes visuais, ele deixou um legado fundamental nas artes cênicas, sendo um dos fundadores do Teatro Popular Brasileiro, projeto que idealizou ao lado de Margarida Trindade e Edison Carneiro.
O Edital de Estudos Étnico-Raciais Solano Trindade é uma realização da Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti) por meio da Facepe. As inscrições para a terceira edição do Edital de Estudos Étnico-Raciais Solano Trindade (27/2026) estarão disponíveis até 21 de setembro, às 23h59 (horário de Brasília), exclusivamente pelo AgilFAP. O resultado preliminar tem previsão de ser divulgado a partir de 16 de outubro. Para mais informações, acesse www.facepe.br/editais e www2.facepe.br/editais.