
Desde o final do século passado, a movimentação mundial em busca da transição energética foi marcada por acordos importantes, como o de Paris, em 2015, e o de Dubai, em 2023. Essa corrida pela descarbonização, redução do uso de combustíveis fósseis e priorização de fontes limpas e renováveis tem impulsionado alternativas como a Usina Hidrelétrica Reversível (UHR).
Enquanto a Usina Hidrelétrica convencional (UHE) utiliza a força e o movimento da água em um único sentido para movimentar suas turbinas e produzir eletricidade, a UHR acrescenta a capacidade de bombear a água de volta para um reservatório superior, utilizando eletricidade, e posteriormente turbiná-la para gerar energia.
A presidente da Associação Brasileira das Empresas Geradoras de Energia Elétrica (ABRAGE), Marisete Pereira, explica que é essa possibilidade de recarregar o armazenamento e operar nos dois sentidos que diferencia a UHR da UHE.
A presidente da Associação Brasileira das Empresas Geradoras de Energia Elétrica (ABRAGE), Marisete Pereira, explica que é essa possibilidade de recarregar o armazenamento e operar nos dois sentidos que diferencia a UHR da UHE.

A especialista reforça que, no caso das UHEs com reservatório de acumulação, a água pode ser armazenada para gerar energia em outro momento e a recomposição desse estoque depende das afluências naturais — o que não significa, contudo, que um tipo de usina seja superior ao outro.
“A UHE é um recurso de geração e, quando possui reservatório, também de armazenamento; a UHR agrega a esse armazenamento a possibilidade de recarga por bombeamento“, resume.
Potencial energético do Brasil
Marisete ressalta que o Brasil pode desfrutar de reservatórios, terrenos, conexões e outras infraestruturas associadas a usinas existentes para desenvolver projetos de armazenamento hidráulico, o que pode representar uma vantagem importante na transição energética.
A presidente da ABRAGE também elenca outro fator importante para o investimento nesse recurso energético: a necessidade de flexibilidade para garantir a estabilidade e a segurança operacional da rede de produção e transmissão de energia elétrica do Brasil, já que fontes como a solar e a eólica são intermitentes (dependem da exposição ao sol e da força e constância dos ventos).
“As UHRs atuam absorvendo o excesso de geração diurna, mitigando os cortes de geração (curtailment) e entregando potência e flexibilidade operacional nos horários de ponta ou em eventos imprevistos na rede. Dependendo da configuração tecnológica e da forma de contratação, também podem prestar serviços ao sistema, contribuindo para resposta rápida e serviços ancilares. Elas proporcionam a flexibilidade operacional de que o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) precisa para manter o sistema equilibrado e seguro“, explica.
Dessa forma, segundo a especialista, o armazenamento passa a ser um recurso complementar à geração e à transmissão, permitindo utilizar de forma mais eficiente a infraestrutura elétrica disponível e melhorar a capacidade de resposta do sistema às variações da oferta e da demanda.
Gargalos do funcionamento e expansão das UHRs no Brasil
Para Marisete, no Brasil, o principal entrave para as UHRs é criar condições regulatórias e econômicas que permitam reconhecer e remunerar adequadamente os diferentes serviços prestados pelo armazenamento da tecnologia.
Ela reconhece que o país avançou significativamente na construção dessas condições, a exemplo da Lei nº 15.269/2025 – que estabeleceu diretrizes para a regulamentação do armazenamento de energia elétrica -, além de uma agenda de leilões de geração publicada pelo Ministério de Minas e Energia (MME), mas acredita que ainda há passos importantes a serem dados.
A presidente da ABRAGE também elenca países como China, Estados Unidos, Portugal e Espanha como referências da implantação da tecnologia. “Nesses locais, os desafios vêm sendo enfrentados por meio de mecanismos de contratação e remuneração que buscam equilibrar o adequado retorno para o investidor com a modicidade tarifária para os consumidores”, pontua.
Marisete afirma que a experiência internacional mostra que projetos dessa natureza precisam de previsibilidade de receita e remuneração adequada pelos serviços que prestam ao sistema. “Segundo a International Hydropower Association (IHA), as usinas reversíveis já superam 200 GW de capacidade instalada no mundo e representam mais de 90% da capacidade global de armazenamento de energia de longa duração”, complementa.
UHRs na Península Ibérica e na Coniben
De acordo com a especialista, a Espanha e Portugal têm experiência com o desenvolvimento e com a operação de usinas reversíveis há décadas. “Mais recentemente, a expansão expressiva da geração eólica e solar aumentou ainda mais a relevância dessas instalações, ao ampliar a necessidade de flexibilidade, armazenamento e capacidade de resposta do sistema elétrico“, acrescenta.
Players do setor energético desses países, junto ao Brasil, participam da Conferência Ibero-Brasileira de Energia (Coniben) para atualizar o debate sobre o futuro do setor energético, com um painel destinado ao armazenamento de energia das UHRs – do qual Marisete participará.
“O Brasil pode aproveitar essa experiência internacional, adaptando-a às características do seu sistema elétrico, que possui elevada participação hidrelétrica e condições favoráveis para integrar geração hidráulica, armazenamento e fontes renováveis variáveis“, reforça a presidente da ABRAGE.
Ela salienta que é uma oportunidade importante para ampliar o debate sobre armazenamento de energia e sobre o papel das usinas hidrelétricas reversíveis na modernização dos sistemas elétricos.
Para Marisete, a participação da ABRAGE na Coniben contribui para aproximar as perspectivas regulatória, técnica e empresarial, trazendo para a discussão a experiência dos agentes do setor e os desafios concretos para a implantação de novos projetos no Brasil.
Serviço – Coniben 2026
Conectando Brasil, Portugal e Espanha, a Conferência Ibero-Brasileira de Energia (Coniben) chega à sua nova edição nos dias 12 e 13 de novembro de 2026, no Hotel Tivoli (Avenida da Liberdade), em Lisboa.
O encontro promoverá um intercâmbio técnico e estratégico focado em acelerar as transformações da área. Sob o tema “Mudanças globais na geopolítica e na geoeconomia impactando o setor de energia”, o evento reunirá autoridades, empresas e especialistas distribuídos em 10 painéis temáticos.
As inscrições para a Coniben 2026 podem ser feitas através do site oficial da conferência.






