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Vitória de Lula pode redefinir espaço político de Raquel Lyra e João Campos em Pernambuco

Raquel Lyra (PSD) e João Campos (PSB) neste sábado (3), último dia de campanha – Miva Filho / Edson Holanda

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para a Presidência do Brasil de 2027 até 2030 deverá influenciar o espaço político da governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD), e do ex-prefeito do Recife João Campos (PSB) no cenário nacional e nas articulações para as próximas disputas eleitorais no Estado.

Derrotado na disputa para o Governo de Pernambuco no primeiro turno, realizado no último dia 4, o presidente nacional do PSB tem sua trajetória política ligada à aliança com o presidente Lula (PT), enquanto Raquel adotou uma posição de independência na disputa entre o petista e o senador Flávio Bolsonaro (PL).

Com a eleição de Lula neste domingo (25), para o quarto mandato, os dois nomes da política pernambucana poderão encontrar condições distintas para ampliar sua influência.

A vitória de Lula tende a favorecer a projeção nacional de João Campos, ainda que a governadora reeleita também mantenha uma boa relação com o presidente.

Para o economista Ecio Costa, a postura de independência adotada por Raquel Lyra, acompanhada da manutenção do diálogo com os dois campos políticos, pode ajudar Pernambuco a preservar o acesso a investimentos federais.

O cientista político Hely Ferreira avalia que a eleição de Lula pode ampliar a visibilidade de João Campos, mas ressalta que a relação do ex-prefeito com o PT será um dos fatores que definirão o alcance de sua projeção nacional.

Relação com Raquel pode mudar

A vitória de Lula deverá interferir na relação política com Raquel Lyra, que mesmo tendo agradecido repetidamente ao presidente pelo auxílio à Pernambuco, escolheu se manter neutra no campo nacional da disputa da presidência, se dizendo “pernambuquista”, e tendo aliados lulistas e bolsonaristas compondo na sua base.

O cientista político ressalta que a postura adotada por Raquel durante a campanha poderá ter consequências na relação com Lula, agora reeleito, embora o especialista não considere provável que Pernambuco seja preterido pelo governo federal.

“Não acredito também que Pernambuco viverá de porteira fechada para um cenário favorável aqui, se na hora que ele mais precisou, ela simplesmente ficou em cima do muro”, afirma Ferreira.

Na avaliação do cientista político, a governadora também pode considerar projetos políticos para além do atual mandato. Ele não descarta que Raquel tente disputar um cargo de maior alcance nacional no futuro, como a vice-presidência da República.

Ecio Costa, por sua vez, avalia que a independência política da governadora pode favorecer a manutenção do diálogo com Brasília, agora com Lula reeleito. Para o economista, a estratégia permite que o governo estadual mantenha interlocução com diferentes grupos políticos sem comprometer a busca por recursos e investimentos.

“Esse diálogo deve acontecer novamente com Lula, o que não vai impedir o trabalho para trazer investimentos aqui para infraestrutura, habitação”, afirma Costa.

O especialista destaca que a capacidade de apresentar projetos consistentes será importante para assegurar investimentos federais. Segundo ele, o governo estadual dispõe de uma estrutura de elaboração de projetos que pode ajudar nas negociações com a União, sobretudo em áreas como mobilidade e infraestrutura.

Na avaliação do economista Edgard Leonardo, as diferenças entre Lula, presidente reeleito, e Flávio, também passam pelas estratégias de financiamento dos investimentos. O chefe do Executivo, por exemplo, propõe dar continuidade ao Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

“São estratégias diferentes de priorização e financiamento, mas os anúncios, por si só, não garantem recursos nem execução efetiva”, afirma.

Vitória de Lula pode ampliar projeção nacional do ex-prefeito

Com Lula reeleito, João Campos se beneficia da continuidade da relação política com o presidente e amplia sua presença nas articulações nacionais. Segundo Hely Ferreira, o alinhamento entre os dois tende a favorecer a visibilidade do socialista, mesmo que ele não ocupe um mandato eletivo.

O cientista político avalia que João Campos poderá, inclusive, assumir uma função no governo federal.

“Com Lula eleito, ele pode ganhar um cargo ou ser ministro, mas não necessariamente isso seria o divisor de águas. Por exemplo, pegar uma pasta ministerial que não tem visibilidade, não adianta, é melhor continuar sendo presidente do partido, dá muito mais visibilidade do que ser ministro de uma pasta que não tem expressão”, analisa.

A avaliação aponta que a presidência nacional do PSB pode oferecer ao ex-prefeito um espaço relevante para participar das decisões políticas do país, negociar alianças e ampliar sua influência na esquerda. O peso dessa posição, entretanto, dependerá da relação com os demais partidos que integram o campo político aliado ao presidente Lula.

Ferreira chama atenção especialmente para o PT, que pode representar um obstáculo à ampliação dos projetos nacionais de João Campos. Embora o socialista seja apontado como um nome com potencial de projeção nacional na esquerda, o apoio dos petistas não estaria garantido.

“O problema é saber se os seus aliados irão deixar que ele prospere. Quando eu digo seus aliados, eu falo especificamente o PT. O PT é um partido muito bom de receber apoio, mas é um partido muito ruim de apoiar. Então, até que ponto o PT estaria disposto a abrir mão de um nome nacional em prol de uma candidatura de João Campos?”, indaga.

Investimentos e articulação política

Além dos efeitos sobre a trajetória individual dos dois políticos, o resultado presidencial poderá influenciar as condições de financiamento de projetos importantes para Pernambuco. Obras de mobilidade, infraestrutura e iniciativas voltadas ao desenvolvimento econômico dependem, em diferentes graus, da capacidade de articulação com o governo federal.

Para Ecio Costa, a manutenção do diálogo institucional será fundamental em qualquer cenário. O economista avalia que um eventual ajuste fiscal não significa, necessariamente, interrupção de transferências sociais, convênios ou obras em andamento. Na análise dele, a redução de despesas que não são de investimento pode abrir espaço para ampliar os recursos destinados a projetos estruturantes.

Neste cenário, Costa considera que a reeleição de Lula poderá trazer dificuldades adicionais para a realização de investimentos caso o governo não consiga enfrentar o desequilíbrio das contas públicas.

“Quando você tem um orçamento pressionado, quando você tem uma pressão do mercado, da sociedade para que as contas públicas sejam equacionadas, e se não tiver nenhum ajuste sério, vão faltar recursos para fazer investimentos, para fazer parcerias”, afirma.

Entre as iniciativas que dependem de articulação e recursos para avançar, o economista cita pautas de mobilidade e infraestrutura, como o metrô e a Transnordestina. Para ele, o desafio fiscal poderá limitar a capacidade de investimento federal, independentemente das relações políticas entre os governos.

Costa também avalia que Pernambuco tem condições de manter uma trajetória econômica favorável, mesmo diante de uma desaceleração nacional. Ele atribui essa perspectiva aos investimentos em infraestrutura, aos setores produtivos e à interiorização do desenvolvimento econômico.

Segundo o economista, a capacidade de apresentar projetos e manter o diálogo com Brasília poderá reduzir os efeitos de um cenário nacional menos favorável sobre o estado.

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